Relato: Vi o Espirito de uma senhora na mesa de jantar na minha casa (Anônimo)

visitas 6 min de leitura

Eu sempre fui cético. Cresci em uma família super supersticiosa, daquelas que não deixam chinelo virado pra não matar a mãe, mas eu nunca dei bola pra isso. Para mim, morreu, acabou. Pelo menos era o que eu achava até alugar uma casa geminada no bairro da Mooca, aqui em São Paulo, uns dois anos atrás.

A casa era antiga, construída lá pelos anos 70, mas o dono tinha acabado de reformar. Piso de porcelanato novo, pintura limpa, elétrica refeita. Mudei pra lá morando sozinho. Era um lugar silencioso, o que era ótimo porque eu trabalho de casa.

Os primeiros três meses foram tranquilos. Depois, as coisas começaram a ficar esquisitas, mas de um jeito sutil. Sabe quando você coloca a chave do carro em cima do balcão, vai no banheiro e, quando volta, ela tá em cima da mesa? Eu botava a culpa na distração. Às vezes, de madrugada, eu escutava um barulho de chinelo arrastando no corredor. Mas como a casa era geminada, eu assumia que era o vizinho idoso da casa do lado indo no banheiro. A gente sempre inventa uma desculpa lógica.

A coisa mudou de figura num sábado de madrugada.

Eu tinha ido dormir tarde, lá pelas 3h da manhã, e acordei umas 4h30 com muita sede. Meu quarto ficava no fundo da casa, e para chegar na cozinha eu precisava passar pela sala de jantar. A casa estava toda escura, iluminada só pela luz amarela do poste da rua que entrava pela janela da frente.

Eu saí do quarto descalço. Quando pisei na sala, eu parei de supetão.

Tinha uma pessoa sentada na mesa de jantar.

Meu primeiro instinto foi puro pânico de assalto. Pensei: invadiram a casa. Fiquei paralisado no corredor, tentando não fazer barulho, e foquei a visão no escuro.

Era uma mulher. Ela estava sentada na cadeira da ponta da mesa, de costas pra mim. Ela não parecia um fantasma de filme, não era transparente, não brilhava e não flutuava. Parecia uma pessoa de carne e osso. Usava uma blusa de frio cinza, dessas de lã, e tinha o cabelo castanho preso num coque baixo, meio bagunçado.

Fiquei ali, sem respirar, esperando ela se mexer para vasculhar as gavetas ou algo do tipo. Mas ela não fazia nada. Estava estática. O silêncio na casa era absoluto, e eu percebi uma coisa que me deu um frio no estômago: eu não conseguia ouvir a respiração dela. Quando alguém está no mesmo cômodo que você, no silêncio total da madrugada, você escuta a pessoa puxando o ar. Ali, não tinha som nenhum.

Dei um passo lento para trás, com a intenção de voltar para o quarto e trancar a porta para ligar para a polícia. Mas o meu calcanhar raspou no porcelanato e fez um barulhinho quase imperceptível.

Na mesma hora, a mulher parou. Quero dizer, a postura dela mudou. Ela enrijeceu os ombros. E, bem devagar, começou a virar a cabeça para trás, na minha direção.

Eu não consegui correr. Fiquei travado.

Quando ela virou o rosto, a luz da rua bateu nela. Ela tinha o rosto de uma senhora de uns 60 anos, com rugas marcadas. Era um rosto comum. O problema é que o rosto estava sem expressão nenhuma, completamente relaxado, como o rosto de alguém que acabou de falecer no hospital. E os olhos dela eram opacos. Sabe olho de peixe morto, que perde o brilho? Eram assim. Não refletiam luz nenhuma.

Ela ficou me encarando por uns cinco segundos. Foram os segundos mais longos da minha vida. Eu senti um frio absurdo subir pelas minhas pernas.

Então, ela simplesmente levantou. Não arrastou a cadeira. Não fez força apoiando na mesa. O corpo dela apenas deslizou para cima, como se não tivesse peso nenhum. Quando ela ficou de pé, ela deu um passo na minha direção. O pé dela não fez barulho ao tocar o chão.

Nessa hora, meu instinto de sobrevivência ligou. Pulei para dentro do quarto, bati a porta e tranquei a chave. Empurrei minha cômoda para frente da porta. Fiquei sentado no chão, encostado na cama, segurando um martelo que eu guardava na gaveta do armário, tremendo incontrolavelmente até o sol nascer. Ninguém forçou a maçaneta. Não ouvi mais nenhum passo.

Às 7h da manhã, quando a rua começou a fazer barulho de carro e ônibus, eu tive coragem de afastar a cômoda e abrir a porta. A sala estava vazia. A cadeira onde ela estava sentada continuava perfeitamente alinhada com a mesa, como se ninguém tivesse sentado ali.

Eu não tinha dinheiro para pagar a multa de quebra de contrato na imobiliária e me mudar de novo. Então, engoli todo o meu ceticismo de uma vez só. Liguei para a minha mãe — a mesma que eu vivia dizendo que era exagerada com essas coisas — e contei tudo. Ela me passou o contato de um senhor que trabalhava com limpeza espiritual e desobsessão.

O cara foi lá em casa na mesma tarde. Ele não fez muito alarde. Acendeu umas ervas que deixaram um cheiro forte de fumaça impregnado nas paredes por dias, bateu uns ramos nos cantos da casa, rezou baixo e me mandou colocar um copo de água com sal grosso atrás da porta da sala.

Conversando com o dono do mercadinho da esquina semanas depois, perguntei meio por cima sobre a antiga moradora. Ele comentou que era uma senhora muito quieta, que morava sozinha e tinha falecido ali dentro mesmo, uns seis meses antes da casa ser vendida e reformada pelo meu locador. Ela tinha tido um AVC durante a noite. Encontraram o corpo dela dois dias depois, sentada na mesa da sala.

Hoje eu ainda moro na mesma casa. O senhor da limpeza disse que ela não era ruim, só estava “perdida na rotina” e não tinha percebido que havia partido. Nunca mais vi ou ouvi nada. O ambiente ficou leve de novo. Mas, para ser sincero com você, até hoje, quando eu levanto de madrugada com sede, eu acendo a luz do corredor e da cozinha antes mesmo de pisar na sala de jantar. Seguro morreu velho.

Ecos das Sombras

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *