Meu nome é Thiago, tenho 28 anos, e o que eu vou contar aqui serve de aviso para quem acha que artesanato místico de feirinha é brincadeira ou item de decoração. Eu sempre fui um cara urbano, cético, do tipo que acha que energia ruim se resolve abrindo a janela e passando um pano na casa.
Tudo começou no ano passado, quando fui passar um final de semana em Paranapiacaba, aquela vila inglesa na serra de São Paulo, famosa pela neblina e pelas lendas. Numa das feirinhas de artesanato perto da estação, eu parei numa barraca que vendia pedras, incensos e umas garrafas de vidro grossas, arrolhadas com cortiça. Dentro delas, tinha uns bonequinhos de biscuit encardido, sentados no meio de musgo seco e uns cristaizinhos.
O vendedor me viu olhando e disse: “Isso é um duende na garrafa. Elemental da terra. A garrafa é a casa dele, serve para conter a energia. Enquanto ele estiver aí dentro, ele puxa a negatividade e atrai dinheiro pra sua vida.”
Achei o bonequinho até simpático, parecia um enfeite rústico. Ele tinha um chapéu pontudo verde-escuro, um nariz comprido e um sorriso esculpido na massa que parecia meio torto. Comprei por pura estética, achando que ia ficar legal na estante da minha sala. Cheguei em São Paulo, coloquei a garrafa lá e a vida seguiu.
O problema começou cerca de um mês depois.
Era um domingo de manhã. Eu moro sozinho num apartamento com piso de cerâmica clara. Acordei meio tarde, levantei de pijama e fui arrastando o chinelo até a cozinha para passar um café. Quando passei pela sala, ouvi um barulho de estilhaço sendo esmagado pelo meu pé.
Olhei para o chão. A garrafa de vidro estava completamente estilhaçada no meio da cerâmica.
Ela não tinha caído da estante, porque a prateleira ficava a uns dois metros de distância de onde os cacos estavam. E o bizarro: a garrafa não rachou no meio, ela estava moída, como se uma pressão absurda tivesse feito o vidro explodir de dentro para fora.
No meio daquele mar de cacos, no centro exato da sujeira, estava o boneco de biscuit. Perfeitamente intacto. Sentadinho, com aquele mesmo sorriso congelado na massa, olhando na direção do corredor dos quartos.
Qualquer pessoa normal pegaria uma vassoura, varreria tudo e jogaria no lixo. Mas eu, num misto de curiosidade e lembrando vagamente do que o vendedor tinha falado, fui pesquisar no celular. Os fóruns de misticismo diziam a mesma coisa: quando a garrafa quebra sozinha, o elemental “cresceu” energeticamente. Ele acordou. A recomendação era que você não jogasse no lixo comum de jeito nenhum, senão a sorte virava azar pesado na mesma hora. Você precisava fazer um “ritual de ancoragem” para encantar o boneco, aceitando ele livre na sua casa.
Decidi fazer, achando que não ia dar em nada. Fui até a cozinha, peguei um pires branco, coloquei um pouco de mel, uma maçã bem vermelha e uma moeda de um real. Varri os cacos do chão e peguei o boneco com a mão. A massa de biscuit parecia esquisita, meio morna, mas achei que era o calor do apartamento.
Coloquei o boneco no chão, num canto escuro perto do rack da TV. Coloquei o pires na frente dele e falei em voz alta: “Você está livre na minha casa. Eu te alimento, você me traz sorte e proteção.”
Fui viver meu domingo. Na segunda-feira de manhã, a maçã estava murcha de um jeito que fruta nenhuma fica em 24 horas. O mel do pires tinha sumido, o prato estava limpo. Pensei: “Formigas, com certeza”.
Naquela mesma semana, a paz do meu apartamento acabou. E não foi com assombração de filme, foi com uma paranoia silenciosa que te faz duvidar da própria sanidade.
Começou com pequenos sumiços. Minhas chaves não estavam no gancho. Achei elas horas depois, dentro da fruteira da cozinha. Minhas moedas sumiam da estante. Mas eu achava que era só distração da minha cabeça.
Até que os barulhos de arranhão começaram. De tarde, eu escutava um som baixo vindo de trás dos móveis. Um raspado no rodapé da parede.
Eu tinha certeza que um rato grande tinha entrado no apartamento. Fui no mercadinho, comprei daquelas ratoeiras de mola de madeira e coloquei atrás da geladeira e debaixo do sofá, usando um pedaço de linguiça calabresa como isca. No dia seguinte, a ratoeira debaixo do sofá estava desarmada. A calabresa não estava lá. Não tinha rato morto.
E o pior: o boneco de biscuit, que eu tinha deixado no canto do rack, não estava lá também.
Senti um calafrio na nuca. Comecei a andar pela casa procurando. Eu achei o boneco debaixo da mesa da cozinha. Ele continuava paralisado, exatamente na mesma posição de biscuit inanimado, de pernas cruzadas. Mas ele estava cercado por três tampinhas de garrafa e as moedas que tinham sumido da minha estante.
Nenhum rato faz uma pilha de moedas em volta de um boneco.
A partir daí, a regra do terror na minha casa virou uma só: eu nunca, em hipótese alguma, via aquela coisa se mexer. O boneco era só um pedaço de massa morta. Mas toda vez que eu acordava ou voltava do trabalho, ele estava num lugar diferente.
Um dia, achei ele em cima da geladeira. No outro, eu abri a gaveta de meias do meu guarda-roupa e quase tive um infarto: ele estava lá no fundo, no escuro, olhando pra cima. O rosto dele parecia diferente. O sorriso esculpido na massa não estava mais torto e simpático; parecia esticado, uma fenda mais funda e ameaçadora. A mãozinha de biscuit, que antes descansava no joelho, agora ficava meio levantada.
A sensação no apartamento ficou doentia. Eu andava arrastando o pé na cerâmica, com um medo irracional de pisar nele. Eu tomava banho rápido. Eu sentia, vinte e quatro horas por dia, que eu estava sendo monitorado do chão. O ar fedia a terra úmida e mato guardado.
O clímax dessa loucura aconteceu numa sexta-feira à noite.
Eu estava na sala, sozinho, sentado no sofá jogando videogame. A TV era a única luz acesa. A maçã nova que eu tinha colocado no pires lá no canto do rack já estava podre, porque o medo tinha me travado de chegar perto para trocar.
De repente, escutei um arranhão vindo debaixo do móvel onde eu estava sentado. Foi um som seco, perto da madeira da estrutura do sofá.
Eu congelei e mutei a TV no controle remoto. Fiquei com os pés apoiados no chão, de meia, segurando a respiração.
Foi aí que eu senti.
Algo frio, duro e áspero como pedra agarrou o meu tornozelo por trás. Não foi um esbarrão. Foram dedos minúsculos cravando com força na minha pele por cima da meia.
Eu soltei um grito rasgado, chutei o ar com desespero e pulei pra cima do assento do sofá, encolhendo as pernas contra o peito. Meu coração estava tão acelerado que a minha visão chegou a embaçar.
Fiquei ali, abraçado no joelho, num silêncio mortal. Liguei a lanterna do celular com as mãos tremendo horrores e apontei a luz para o piso branco debaixo do sofá.
Não tinha nenhum monstro se mexendo. Não tinha bicho correndo.
O que tinha lá era o boneco de biscuit. Ele estava perfeitamente estático, tombado de lado no chão frio, exatamente no ponto onde o meu pé esquerdo estava apoiado dois segundos antes.
Ele era só massa e tinta. Morto e inanimado. Mas o braço dele, aquele mesmo bracinho de biscuit que eu vi levantando durante os dias anteriores, estava esticado para fora. E os dedinhos curtos de massa estavam sujos da poeira do chão e posicionados em formato de garra, como se tivessem acabado de apertar algo e congelado na mesma hora em que a luz da TV bateu nele.
O rosto daquele boneco iluminado pela lanterna do celular é a pior imagem da minha vida. A fenda do sorriso parecia ter rasgado a massa.
Eu não esperei ver mais nada. A adrenalina do instinto de sobrevivência bateu. Desci do sofá num salto, longe de onde ele estava. Fui no armário da área de serviço, peguei uma luva de borracha grossa de lavar banheiro, um pote de plástico com tampa de rosca e um rolo de fita isolante.
Com o coração quase parando, voltei na sala, enfiei a mão debaixo do sofá e agarrei o boneco. Ele estava gelado. Joguei dentro do pote de plástico, rosqueei a tampa e passei a fita isolante em volta do pote inteiro, fechando qualquer fresta. Soquei o pote dentro de uma mochila velha.
Eram umas duas da manhã. Peguei a chave do carro, desci e dirigi direto para a Rodovia Fernão Dias, sentido Mairiporã, onde começa a ficar com muita mata fechada em volta da pista. Parei num acostamento escuro e isolado. Tirei a mochila do carro, abri o zíper e joguei aquele pote de plástico isolado o mais fundo que consegui no meio daquele matagal denso do barranco. Gritei para a floresta escura que a promessa estava desfeita e que ele pertencia ao mato agora.
Entrei no carro e voltei pra São Paulo tremendo de frio e de choque.
No dia seguinte, fiz uma faxina pesada no apartamento, passei sal grosso com anil em todo o piso de cerâmica e joguei o pires no lixo. Os sumiços pararam na mesma hora. O cheiro de terra molhada sumiu da sala. Nunca mais encontrei moeda empilhada nem linguiça sumida das ratoeiras.
Hoje, vivo em paz no meu apartamento. Mas fica a lição: a gente acha que enfeite “energético” é inofensivo
Ecos das Sombras