Meu tio entrou voando em casa, bateu a porta e passou a tranca, branco de susto. As crianças estavam apavoradas na sala e, lá do quarto, a minha tia só sabia chorar alto. Ninguém conseguiu dormir o resto da noite. A gente ficou ali na sala, em choque, apenas esperando o sol nascer. Meu tio nem tocou no assunto, ficou sentado com a espingarda no colo até o dia clarear.
Na manhã seguinte, o clima estava péssimo. Fomos todos para o quarto da minha tia, e foi aí que ela finalmente abriu o jogo e confessou o que tinha feito.
Ela contou que há muitos anos, quando o sítio estava passando por uma fase terrível e eles quase perderam tudo, ela procurou, escondida do meu tio, uma mulher de uma cidade vizinha que mexia com magia negra. Essa mulher fez um trabalho para proteger as terras e trazer prosperidade. A condição era que a minha tia abrigasse um espírito lá nos fundos e alimentasse ele com frequência.
Ela escondeu isso de todo mundo a vida inteira. Só que, como o câncer foi piorando e ela ficou acamada, ela não tinha mais como ir até o mato para deixar as oferendas e a comida. O espírito zombeteiro simplesmente começou a passar fome e ficou revoltado. Ele estava rondando a casa, batendo no telhado e assustando a gente porque queria cobrar o trato que ela tinha feito.
Meu tio ouviu a história calado, mas o rosto dele ficou vermelho de raiva. Ele era um cara do interior, muito duro, e não aceitava esse tipo de coisa na casa dele. Ele não falou nada com ela. Só levantou, foi até o quartinho de ferramentas, pegou um facão e um galão de combustível.
Eu mostrei para ele de longe onde ficava a casinha no meio do mato. Ele foi até lá sozinho. Em questão de minutos, escutei o barulho da madeira sendo quebrada na pancada e, logo depois, vi uma fumaça preta e grossa subindo por cima das árvores. Ele quebrou tudo que tinha lá dentro, inclusive o boneco e as coisas velhas, e botou fogo em tudo.
Surpreendentemente, depois que ele queimou a casinha, o clima no sítio mudou na mesma hora. Aquele peso que ficava no ar sumiu. O resto dos meus dias lá foram tranquilos, não escutei mais nenhum passo no telhado e nem sussurro na janela.
Eu terminei a minha visita e fui embora de Parambu uns dias depois, voltando para a minha rotina.
Exatamente um mês depois que eu voltei, meu tio ligou avisando que a minha tia não resistiu e acabou falecendo por causa da doença.
Hoje, eu tento focar apenas na lembrança boa que tinha dela antes de tudo isso. Mas é impossível esquecer o que aconteceu naquela viagem.
Ecos das Sombras