A partir daquele momento, a ficha caiu. Fiquei ali olhando para aquela casinha macabra no meio do mato e tentando entender. Até onde eu me lembrava, a minha tia sempre foi evangélica. Mas a verdade é que no interior, as pessoas às vezes misturam as crenças, e eu sabia que aquilo não era brincadeira de criança. Ela devia estar alimentando, ou até mesmo cultuando, algum tipo de espírito ali.
Eu sempre fui uma pessoa muito tranquila e acredito fortemente no mundo espiritual. Como eu queria ver a minha tia em paz e sem aquela agonia, não pensei duas vezes: decidi fazer o que ela me pediu.
Fiz um prato de comida reforçado logo após o almoço. Antes de sair, fui até o quarto dela e perguntei, meio por cima, se eu precisava fazer alguma oração ou ritual antes de colocar a comida atrás da casa (óbvio que eu não contei que o João tinha me mostrado a casinha). Ela estava fraca, mal abriu os olhos e apenas balançou a cabeça dizendo que não precisava fazer nada, era só deixar a comida lá.
Saí pela porta dos fundos, mas não deixei o prato atrás da casa como ela orientou. Fui direto para o mato, até a casinha de madeira. Coloquei o prato lá dentro, no meio daqueles brinquedos velhos e velas derretidas. Enquanto eu abaixava, fechei os olhos e fiz uma reza com muita fé. Pedi a Deus que, se tivesse algum espírito perdido e preso ali, que ele fosse encaminhado, que pudesse encontrar a luz e deixasse a minha tia descansar.
Voltei para casa sentindo que tinha feito a minha parte. O clima estava quente, típico do sertão cearense, então me deitei na rede que ficava na varanda externa e acabei apagando. Tive um sono pesado. Só acordei umas 17:00, com o meu tio me chamando, avisando que ia começar a preparar a janta e pedindo uma ajuda. Levantei meio grogue e fui para a cozinha.
Enquanto a gente jantava, um pensamento esquisito começou a martelar na minha cabeça: “Será que esse espírito também janta?”
Eu não queria ir lá perguntar para a minha tia de novo e deixar o meu tio desconfiado. Então, quando todo mundo terminou, eu fiz um pratinho menor escondido. Só que a noite já estava caindo, o breu do mato estava engolindo o quintal e o meu medo falou mais alto. Eu não tive coragem de entrar no matagal até a casinha. Deixei o prato bem atrás da parede da casa mesmo, dei meia volta e entrei quase correndo.
Lá no sítio, o costume é rigoroso: no máximo às 21:00 todo mundo já está na cama, porque eles acordam com as galinhas, antes do sol nascer. Eu não estava nem um pouco acostumada a dormir tão cedo. Fui para o quarto, acendi um abajur de led e peguei um livro que tinha levado na mala. Eu sempre usei a leitura para me dar sono.
Fiquei lendo por um bom tempo. O sono finalmente começou a bater. Coloquei o livro de lado, apaguei a luz e me ajeitei.
E, para o meu desespero, o pesadelo recomeçou.
Acordei sobressaltada com um barulho forte vindo do teto. Não era um passarinho ciscando. Era uma batida seca na telha. Pensei comigo mesma: “Meu Deus, o que é que ele quer agora? Eu já dei a comida!”
Dessa vez, eu não fiquei paralisada na cama. Levantei devagar, fui até a janela e abri a fresta para espiar. Não tinha nada lá fora. Só o mato e o escuro.
Tentei voltar para a cama e me cobrir, foi quando eu congelei. Comecei a escutar um sussurro. Não vinha de longe, vinha exatamente da fresta da janela. Era uma voz abafada, embolada, eu não conseguia distinguir as palavras, mas tinha alguém — ou alguma coisa — ali, do lado de fora, a centímetros de mim.
Comecei a rezar baixinho, com a voz embargada. Pedi a Deus para me proteger, pedi para aquilo me deixar em paz e encontrar o caminho da luz. Antes mesmo de eu conseguir terminar o Pai Nosso, o sussurro parou. Em seguida, ouvi o barulho de algo arranhando a parede e subindo correndo para o telhado. Era pesado. A coisa começou a andar por cima das telhas, passos lentos, crec… crec… crec… bem devagar em cima da casa.
Não pensei duas vezes. Saí do quarto na ponta dos pés e fui correndo para o quarto do meu tio. Acordei ele sacudindo o ombro dele de leve e falei bem baixinho:
— “Tio, tem alguém em cima da casa. E não é passarinho.”
Ele pulou da cama na hora. Olhei no relógio do celular, era exatamente 1:50 da manhã. Ele pegou a lanterna e, por precaução, pegou a espingarda dele que ficava no canto do quarto — lá pro interior é comum o pessoal andar armado para se proteger de invasor ou bicho grande.
Saímos juntos pela porta da frente. O ar estava gelado. Ele andou até o quintal, mirou a lanterna para o telhado, e nós dois vimos.
Havia um vulto lá em cima. Quando a luz bateu, a coisa deu um salto gigantesco e pulou para o outro lado do telhado, caindo nos fundos da casa com um baque surdo.
Meu tio perdeu a paciência, destravou a arma e saiu correndo pela lateral da casa, gritando: “Eu vou atirar! Eu vou atirar!”
Só que, no impulso de ir atrás, ele virou a esquina da casa e me deixou completamente sozinha na parte da frente. O breu me envolveu. Fiquei ali, segurando a respiração, esperando ouvir um tiro.
Em vez disso, escutei um barulho de passos rápidos na terra. Não vinham de trás da casa. Vinham de trás de mim.
Quando eu virei o pescoço, o sangue gelou nas minhas veias. A coisa passou correndo por mim na escuridão e, enquanto corria, soltou uma risada. Não era uma risada humana, era um som gutural, debochado, arranhado na garganta.
Eu não aguentei. Dei um grito de terror absoluto: “Tá aqui comigo! A coisa tá aqui comigo!”
Saí atropelando tudo e entrei em casa trancando a porta de vez. Meu tio voltou correndo, esmurrando a porta, gritando para eu abrir, perguntando desesperado “Cadê? Aonde foi?”. O caos se instalou na casa. Os meninos acordaram chorando, apavorados com a confusão, e, do quarto ao lado, a única coisa que se ouvia era a minha tia soluçando e chorando alto, sabendo exatamente quem era que estava do lado de fora.
Ecos das Sombras