Tem coisas que a gente só acredita quando vive na pele. Eu sempre morei em cidade grande e achava que essas histórias de assombração do interior eram apenas lendas para assustar o povo. Mas depois do que eu passei no sertão do Ceará, minha cabeça mudou completamente.
Isso aconteceu no começo deste ano. Eu tinha acabado de ser demitido da empresa onde trabalhava. Peguei o dinheiro da minha rescisão e, como estava com um dinheirinho guardado e tempo livre, pensei: “Vou dar uma viajada, esfriar a cabeça”. Foi aí que soube que a minha tia estava muito mal. Ela morava em Parambu, uma cidade no interior do Ceará, bem distante de tudo e super isolada. Ela estava com câncer, já em estágio paliativo, e eu decidi que seria uma boa ideia ir até lá para visitá-la e dar uma força para a família.
A estrutura deles era bem pequena: na casa só morava ela, o marido (meu tio) e os dois filhos deles — o João, que era o mais novo, de 10 anos, e o outro irmão dele, que era mais velho.
A viagem para chegar lá foi uma odisseia. Parambu já é um lugar afastado, mas a casa deles ficava muito mais distante, literalmente no meio do mato, isolada de qualquer sinal de civilização. Meu tio foi me buscar de carro na rodoviária da cidade mais próxima, e só o trajeto da cidade até o sítio deles levou quase duas horas de estrada de terra, buraco e poeira, cercados apenas pela caatinga seca.
Chegando na casa, deixei as minhas malas no quarto e fui direto ver a minha tia. O cenário me quebrou o coração. Ela estava muito debilitada, magrinha, deitada na cama. Mesmo assim, ela estava consciente e ainda conseguia conversar um pouco. Ficamos ali batendo papo no tempo dela, bem devagar.
Em um certo momento, o quarto ficou em silêncio. Minha tia olhou fixamente para mim, apertou a minha mão com uma força que eu nem sabia que ela ainda tinha, e sussurrou:
— “Você precisa alimentar o Miguel… Ninguém quer me ajudar com isso aqui nessa casa.”
Eu fiquei confuso. Olhei para ela e pensei rápido, mas nenhum dos meus primos se chamava Miguel. Antes que eu pudesse perguntar quem era, meu tio entrou no quarto com um semblante sério e cortou a conversa na hora:
— “Para com esse assunto. Já conversamos sobre isso.”
Minha tia começou a respirar rápido, ficou super ofegante e, olhando desesperada para mim enquanto o meu tio a afastava, insistiu:
— “Alimenta ele… Alimenta ele!”
Na hora, eu fiquei bem assustada, mas tentei me acalmar pensando pelo lado lógico: ela estava muito doente, tomando remédios fortes para a dor, então deduzi que era apenas um delírio ou alguma confusão mental por causa do estado paliativo. Mas eu estava completamente errado.
Três dias se passaram sem grandes novidades, a rotina era cuidar dela e ajudar nas tarefas da casa. Até que chegou a quarta noite.
Eu estava dormindo no quarto do João, o primo mais novo de 10 anos. O quarto era muito escuro, um breu total. Lá pelas três da manhã, eu acordei com um barulho estranho vindo de cima. Era um som nítido de algo batendo no teto, que era daquelas telhas de barro comuns.
Clac… clac… clac.
Pensei comigo mesma: “Ah, deve ser algum bicho, um passarinho, um sagui andando no telhado”. Virei para o lado e tentei voltar a dormir.
Quando eu estava quase pegando no sono de novo, o barulho se repetiu, só que dessa vez não foi no teto. Foi na janela do quarto. Alguém ou algo bateu com força na madeira.
TOC, TOC, TOC.
Aí o meu coração disparou e eu acordei de vez. Fiquei em estado de alerta máximo, sentada na cama. Olhei para o lado e o João continuava dormindo profundamente, parecia uma pedra. A janela do quarto era daquelas antigas, de correr. Eu não conseguia tirar os olhos daquela madeira no escuro.
De repente, o trinco da janela começou a mexer de leve. A folha de madeira começou a querer abrir, bem devagar, como se tivesse alguém do outro lado do lado de fora, forçando a fresta com os dedos para entrar. O pânico tomou conta de mim. Conforme a janela foi cedendo, abriu uma fresta e um raio fraco da luz da lua entrou no quarto, iluminando o chão.
Eu não aguentei o terror daquela cena e dei um grito altíssimo.
O grito acordou a casa inteira. Meu tio veio correndo com uma lanterna, abriu a janela toda e olhou lá fora no quintal. Estava tudo deserto, o vento balançando o mato seco. Ele tentou me acalmar, dizendo que no meio do mato é assim mesmo, que podia ser o vento ou algum pássaro grande que bateu contra a madeira. Voltamos a dormir, mas eu passei o resto da noite acordado, com os olhos bem abertos.
Quando amanheceu, fui até a janela checar. Ela estava semiaberta, exatamente como tinha ficado na madrugada. Aquilo já me deixou muito intrigado.
Mais tarde, fui até o quarto da minha tia para ver como ela estava e decidi contar o que tinha acontecido na noite anterior. Assim que terminei de falar, ela ficou extremamente ofegante de novo, os olhos arregalados de aflição.
— “É o Miguel… Ele está pedindo comida. Alimenta ele!” — ela implorou.
Sentindo um arrepio na espinha, eu resolvi ceder para ver até onde aquilo ia:
— “Está bem, tia. Onde é que ele fica?”
— “Eu não posso falar… Eles não deixam. Mas coloca um prato de comida atrás da casa que ele vai lá comer.”
Aquilo era bizarro demais, mas a feição de pavor da minha tia me dava a certeza de que, de algum jeito, ela estava falando a verdade. Ela sabia de algo. Assim que saí do quarto, decidi aproveitar que meu tio e meu primo mais velho tinham saído para resolver uma coisa no roçado e fui dar uma vasculhada nas proximidades da casa para ver se achava alguma pista.
Eu estava contornando o quintal perto do matagal quando o João, o primo de 10 anos, apareceu de mansinho atrás de mim. Ele me olhou sério e falou bem baixinho:
— “Eu sei onde o Miguel mora… Mas não fala para o meu pai, por favor.”
Eu olhei para o menino, dei um voto de confiança, segurei a mão dele e disse que seria o nosso segredo. O João então me puxou pelo braço e me levou para dentro do mato fechado, contornando os fundos da propriedade.
Gente do céu, eu juro por tudo que é mais sagrado. No meio da vegetação, escondida entre os arbustos, tinha uma estrutura. Era tipo uma casinha de cachorro grande, feita de madeira velha e desgastada.
Quando eu me aproximei e olhei lá dentro, meu estômago revirou. O cheiro que saía dali era podre, uma mistura de carniça com coisa azeda. E o cenário era bizarro: lá dentro tinha vários brinquedos antigos de criança quebrados, restos de velas derretidas e um pedaço de osso. Não tinha nenhum animal ali dentro, mas dava para sentir que o lugar estava impregnado com uma energia pesada, maldita.
Ali eu entendi que o Miguel não era uma pessoa. E muito menos um delírio da minha tia.
Ecos das Sombras