Meu nome é Marcos, tenho 32 anos. O relato que vou compartilhar aqui não envolve cemitério de madrugada, casa abandonada ou pacto de filme com sangue no meio de um pentagrama. O verdadeiro ocultismo, aquele que destrói a vida da pessoa, acontece dentro do próprio quarto, na frente de um notebook, num dia comum.
Há uns quatro anos, eu estava no fundo do poço. Tinha sido demitido, meu nome estava sujo, o aluguel estava atrasado há três meses e a imobiliária já estava ameaçando com ordem de despejo. O desespero tira a racionalidade de qualquer ser humano. Eu passava as madrugadas acordado, fumando e pesquisando na internet qualquer forma de ganhar dinheiro rápido. Foi numa dessas madrugadas que eu caí num fórum da deep web sobre Magia do Caos e Ocultismo Prático.
Para quem não conhece, a Magia do Caos não tem a ver com adoração a demônios. É uma prática onde o ocultista usa a própria mente e energia vital para manipular a realidade. Um dos tópicos mais comentados nesse fórum era a criação de “Servidores”.
Basicamente, um Servidor é uma entidade que você mesmo cria do zero. Você desenha um símbolo (um sigilo), dá um nome para ele, dá uma função específica (no meu caso, trazer dinheiro e oportunidades) e determina do que ele vai se alimentar para continuar existindo. O fórum alertava: a entidade é uma extensão da sua mente, como um programa de computador, e você precisa estabelecer uma data de validade para destruí-la. Se você deixar o Servidor agir por muito tempo, ele ganha consciência própria, vira um obsessor e passa a sugar você para se manter vivo.
Eu li os riscos. Mas a fome e o desespero falaram mais alto. Eu decidi criar um.
Comprei uma caixinha de MDF crua, de tamanho pequeno, dessas de guardar relógio. Desenhei o símbolo do meu Servidor no fundo dela com tinta preta. Coloquei o nome dele de “Áureo”, que remete a ouro. Escrevi num papel as regras: ele deveria me trazer dinheiro para quitar minhas dívidas, e, em troca, toda sexta-feira à meia-noite, eu o alimentaria com a energia de uma vela verde e uma única gota do meu sangue pingada em cima do símbolo. Coloquei a caixa no fundo do meu guarda-roupa, num lugar escuro, e fiz o primeiro ritual de ativação.
Furei o dedo com uma agulha esterilizada, pinguei o sangue no desenho, acendi a vela e foquei toda a minha intenção e angústia naquilo.
O que aconteceu na semana seguinte me fez achar que eu era o cara mais inteligente do mundo.
Na terça-feira, recebi um e-mail de uma empresa de tecnologia onde eu tinha feito entrevista há mais de um ano. Alguém tinha desistido da vaga e eles me ofereceram o cargo ganhando o dobro do que eu ganhava antes. Na quinta-feira, um tio distante que eu não via há anos me ligou do nada, dizendo que um terreno que era herança do meu avô tinha sido vendido e a minha parte (uns bons milhares de reais) ia cair na minha conta.
Em dez dias, eu paguei todas as minhas dívidas, paguei os aluguéis atrasados e sobrou muito dinheiro. Eu estava eufórico.
Naquela sexta-feira, fui até o guarda-roupa, acendi a vela verde, furei o dedo e pinguei o sangue no papelão da caixa. Fiquei ali elogiando a entidade, sentindo um poder absurdo. Só que eu me deixei levar pela ganância. O meu combinado inicial era destruir a caixinha assim que eu pagasse as dívidas. Mas eu não destruí. Pensei: “Se em dez dias ele me deu isso, imagina o que ele me dá em um ano?”
Foi a pior decisão da minha vida.
No segundo mês, a energia do apartamento começou a mudar. O dinheiro continuava entrando — ganhei bônus no trabalho, acertei um bolão pequeno da loteria com uns amigos —, mas eu não conseguia aproveitar. Eu comecei a emagrecer de forma doentia. Minha pele ficou pálida, meu cabelo começou a cair. Eu dormia exausto, mas acordava como se tivesse corrido uma maratona.
E a caixinha dentro do armário começou a feder.
Não era cheiro de mofo. Era um cheiro metálico, pesado, que lembrava sangue velho misturado com suor e cobre. Toda vez que eu abria a porta do guarda-roupa, o cheiro grudava na minha roupa.
No terceiro mês, o Servidor parou de se contentar com a vela e a gota de sangue das sextas-feiras. A entidade tinha ganhado vontade própria.
Começou com barulhos muito sutis. Eu moro sozinho, e de noite, enquanto eu trabalhava no notebook na sala, comecei a ouvir arranhões. Não era na parede. Era dentro da porta fechada do guarda-roupa no meu quarto. Um barulho rítmico, como se uma unha estivesse raspando a madeira da caixa de MDF, tentando sair.
Eu entrava no quarto, acendia a luz e o barulho parava na mesma hora. Mas a atmosfera do quarto ficava densa, igual quando você entra numa sala e percebe que duas pessoas estavam brigando feio. O ar ficava pesado, hostil.
A gota d’água aconteceu numa madrugada de quarta-feira.
Eu estava dormindo e acordei de supetão, por volta das três da manhã. O quarto estava um breu total. O cheiro de sangue estragado e ferrugem estava tão forte que embrulhou meu estômago na hora. Virei o rosto devagar em direção ao guarda-roupa. A porta, que era pesada e de correr, estava totalmente aberta.
O meu instinto foi encolher na cama, mas eu não senti nenhum peso no colchão, nem vi nada se mexendo. O terror foi muito mais psicológico.
Do escuro absoluto, exatamente de dentro do vão aberto do armário, eu comecei a escutar um choro.
Não era o choro de uma criança ou de uma mulher. Era o choro de um homem em desespero. O som era abafado, rascante. Fiquei paralisado, escutando aquilo com o coração batendo na garganta. Então, a voz no escuro começou a sussurrar frases no meio do choro:
— “Por favor… eu preciso de dinheiro… eu não tenho mais nada. Me ajuda, eu não quero ser despejado.”
Meu sangue gelou.
A voz não era de um demônio. Era a minha própria voz. Era o meu tom, o meu sotaque. A entidade estava repetindo exata e perfeitamente as mesmas frases e o mesmo tom de desespero que eu tinha usado no primeiro dia, quando chorei na frente da caixinha implorando por dinheiro.
Aquela coisa não estava mais trabalhando para mim. Ela estava me espelhando. Estava me esvaziando por dentro para assumir a minha energia, sugando a minha identidade. O choro no escuro foi parando devagar e terminou com uma risada curta, seca, que soou idêntica à minha risada de quando estou nervoso.
Eu passei o resto da madrugada na cama, com os olhos arregalados, tremendo e sem conseguir me mexer até a primeira luz do sol bater na janela.
Na manhã seguinte, eu estava decidido: eu ia matar aquilo. Peguei um isqueiro, um prato de vidro temperado e fui até o quarto. A energia lá dentro era sufocante. Cada passo que eu dava em direção ao armário, parecia que eu estava andando contra a correnteza de um rio. Minha cabeça latejava.
Quando abri a caixinha de MDF, meu estômago revirou de novo. O fundo dela, onde eu pingava uma gota de sangue por semana, estava forrado com uma crosta preta, espessa, parecendo uma borra grossa. Aquilo não era só o meu sangue secando. Tinha a textura de algo orgânico, nojento.
Peguei a caixa, levei para dentro do banheiro e tranquei a porta. Coloquei ela no prato de vidro. O fórum dizia que para destruir um Servidor sem que ele se volte contra você, você precisa queimar o objeto, apagar o sigilo e não demonstrar um pingo de medo.
Assim que eu acendi o isqueiro e coloquei o fogo na borda da caixa, a lâmpada do meu banheiro queimou num estouro seco.
Fiquei apenas com a luz fraca do isqueiro e das chamas começando a pegar na madeira e no papel. No exato segundo em que o fogo consumiu o símbolo preto no fundo da caixa, a presença no banheiro se tornou esmagadora.
A porta do banheiro começou a tremer. Alguém — ou alguma coisa — estava do outro lado, no corredor, empurrando a maçaneta com força, tentando entrar. Eu via a sombra tapando a fresta de luz debaixo da porta. E, do outro lado, eu ouvia a minha própria voz batendo na madeira e gritando furiosamente comigo mesmo:
— “Abre! Para com isso, abre agora! Você não é nada sem mim!”
O pânico foi tão grande que eu recuei e bati as costas no azulejo frio do boxe. Eu tranquei os dentes, fechei os olhos e murmurei para mim mesmo, lembrando da regra de não ter medo: “Você não é real. Você é só uma ideia. Eu te criei, eu te destruo.”
O fogo engoliu a caixa inteira no prato. Uma fumaça preta e com um cheiro indescritível de lixo e enxofre subiu até o teto.
Quando o último pedaço de MDF virou cinza e o fogo apagou sozinho no prato de vidro… a batida na porta parou. O silêncio voltou. A sombra por baixo da fresta sumiu.
Eu abri a porta do banheiro, com as mãos tremendo, e o apartamento estava vazio. Aquele ar hostil, a pressão na cabeça e o cheiro de ferrugem tinham desaparecido na mesma hora. Eu abri todas as janelas do apartamento, peguei o prato com as cinzas, desci até a rua e joguei tudo dentro do bueiro, lavando o prato com água sanitária depois.
Eu me livrei da entidade. Mas o ocultismo cobra todas as dívidas com juros altíssimos. O universo tem uma balança, e o que você arranca na marra de um lado, é tirado do outro.
Dois dias depois do banimento, a empresa onde eu trabalhava entrou num processo de reestruturação e o meu setor inteiro foi demitido. O dinheiro que eu tinha guardado da herança do meu tio, eu gastei todo nos meses seguintes. Tive um problema de encanamento no apartamento que destruiu meus móveis, bati o carro e precisei pagar o conserto do outro motorista, e fiquei doente com uma infecção que me fez gastar rios de dinheiro na farmácia.
Eu voltei à estaca zero. Fiquei quebrado de novo. Mas, pelo menos, quando eu deitava a cabeça no travesseiro, eu sabia que estava sozinho no meu quarto.
Hoje, eu estou me reerguendo com o meu próprio esforço. Tenho um emprego normal, pago minhas contas suando a camisa. Se tem uma lição que eu aprendi e que repito para qualquer um que venha me falar de magia, simpatias profundas ou invocação de entidades na internet, é essa: não existe dinheiro fácil no plano espiritual.
Ecos das Sombras