Relato: Brinquei com um Ouija de papelão e o preço foi alto

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Meu nome é Roberta, tenho 28 anos, e até um tempo atrás eu era a pessoa que dava risada de quem acreditava em fantasma, espírito ou qualquer coisa do tipo. Eu moro sozinha num apartamento alugado de um quarto e sala. Como a grana é curta e eu passo muito tempo em casa, criei o hábito de escutar podcasts de terror, crimes reais e mistérios enquanto arrumo a casa ou faço marmita para a semana. Para mim, era puro entretenimento. Histórias para passar o tempo.

Num desses programas, um rapaz que se dizia ocultista comentou algo que me chamou a atenção. Ele disse que as pessoas têm uma visão muito romantizada do contato espiritual. Falou que você não precisa comprar um tabuleiro Ouija na loja, feito de madeira bonitinha, para a coisa funcionar. Segundo ele, o que importa é a intenção. Se você pegar um pedaço de papel, escrever as letras e direcionar sua energia para chamar algo, o portal se abre do mesmo jeito. O material é inútil, a chave é a mente.

Numa sexta-feira à noite, no mês de novembro, estava caindo uma tempestade daquelas. A internet de casa caiu, o 4G não estava carregando nada e eu me vi num tédio absoluto, sentada no sofá ouvindo a chuva bater na janela. Lembrei dessa história do podcast e resolvi fazer o teste de sacanagem. Pensei: “Vou provar para mim mesma que isso é efeito psicológico.”

Fui até a área de serviço, peguei uma aba de uma caixa de papelão de uma compra de mercado, abri e escrevi o alfabeto com um canetão preto. Embaixo coloquei os números de 0 a 9, a palavra “SIM” num canto, “NÃO” no outro, e “ADEUS” embaixo. Fui na cozinha, peguei um copinho de vidro grosso, desses de tomar dose de cachaça, e voltei pra sala.

Sentei no tapete felpudo, coloquei o dedo indicador e o médio em cima do fundo do copo virado para baixo e falei em voz alta, me sentindo uma idiota no meio da sala escura:

— “Tem alguém aqui?”

Fiquei uns cinco minutos assim e nada. Apenas o barulho da chuva lá fora. Achei que era palhaçada. Mas resolvi tentar mais uma vez, me concentrando mais, olhando fixo para o vidro.

E foi aí que a temperatura do copinho mudou.

Não foi impressão. O vidro do copinho ficou gelado. Sabe quando você tira um copo da geladeira e ele sua na sua mão, chegando a escorregar? Ficou exatamente desse jeito. A umidade dos meus dedos condensou no vidro.

Do nada, o copo começou a arrastar pelo papelão. Muito devagar, fazendo aquele barulhinho áspero de vidro ralando no papel. Ele subiu e parou em cima da palavra “SIM”.

Meu coração deu um soco no peito, mas meu lado racional gritou na hora: “É o efeito ideomotor, você mesma está empurrando por reflexo muscular”. Para testar e provar que eu estava me boicotando, fechei os olhos com força, virei a cara para a televisão desligada e fiz uma pergunta da qual eu sabia a resposta, mas que exigia precisão:

— “Em que ano a gente tá?”

O copo andou, parou, andou de novo. Fez quatro movimentos. Quando abri os olhos e olhei para baixo, ele tinha parado no 2, depois no 0, depois no 2 e no 3. O ano exato em que estávamos.

O clima na sala mudou drasticamente. Sabe quando o tempo fecha para chover e a pressão cai tanto que o ouvido meio que entope? O ar ficou pesado. Falei, com a voz já meio embargada e trêmula:

— “Quem tá aí?”

Dessa vez o copo andou rápido. A força embaixo dele era nítida, meus dedos mal acompanhavam a velocidade. Ele formou a palavra: F – O – M – E.

Perguntei, já com falta de ar: “Fome de quê?”

Ele arrastou com violência para as letras: V – I – D – A.

Tirei a mão do copo como se tivesse tomado um choque de 220 volts. O vidro rolou pelo papelão. Me deu um instinto ruim, um pavor primitivo que subiu pela espinha. O desespero foi tanto que eu não pensei em “regras” de ocultismo. Eu não movi o copo para o “ADEUS”, não fechei o jogo, não falei nada. Só levantei num pulo, peguei o papelão, amassei de qualquer jeito e soquei dentro da lixeira da cozinha, bem por cima da borra de café da manhã e de umas cascas de ovo.

Fui para o quarto, acendi a luz, liguei a TV no volume alto (mesmo sem internet, só na TV aberta) e fui dormir me chamando de idiota, tentando me convencer de que o medo me fez mover o copo.

Só que eu tinha deixado a porta aberta. E nas duas semanas seguintes, a minha vida e a minha casa viraram um inferno silencioso.

A primeira coisa que me atingiu foi o físico. Começou com um cansaço que beirava a doença. Eu dormia oito horas por noite e acordava destruída, com os ombros pesados, dor na lombar e o pescoço duro. Eu me arrastava para ir trabalhar. Tomava litros de café e parecia que a minha bateria estava sempre em 1%.

Depois, começou a degradação do ambiente. O meu banheiro, que sempre foi impecável, começou a feder a esgoto e carne estragada do nada. Era um odor que embrulhava o estômago. Eu jogava cândida pura no ralo, esfregava o piso, passava desinfetante. O cheiro não saía. E o mais bizarro: dava uns dez ou quinze minutos, o cheiro sumia completamente sozinho, e o banheiro voltava a cheirar a sabonete.

Na segunda semana, a paranoia tomou conta de mim. A sensação de ser observada era 24 horas por dia. O desespero de morar sozinha é que você sabe exatamente onde deixou suas coisas. A chave do carro, que eu sempre deixava no gancho da porta, aparecia debaixo da almofada do sofá. A porta do guarda-roupa amanhecia escancarada.

Eu tomava banho de costas para a parede, olhando fixamente para o blindex do boxe, porque a intuição — aquele sexto sentido que avisa a gente do perigo — gritava que tinha alguém em pé no banheiro me observando. O arrepio na nuca era constante. Minha casa não era mais minha. Eu era uma intrusa ali.

A pior noite da minha vida aconteceu exatos quinze dias depois da “brincadeira”.

Era uma terça-feira de madrugada. Eu estava deitada na cama de barriga para cima, acordada, mexendo no celular porque não conseguia pegar no sono de jeito nenhum. Do nada, o quarto ficou gelado. Mas não era frio de clima, era um gelo antinatural, que parecia sair das paredes e cortar a pele. O silêncio na casa ficou absoluto, não se ouvia nem o barulho dos carros na rua.

Eu não vi nenhum monstro. Não vi vulto, sombra, nem fumaça preta.

Mas eu escutei.

Eu escutei, com uma clareza que me dá náuseas até hoje, o barulho do piso de taco de madeira do meu quarto estalando.

Alguém deu um passo do lado da porta.

Depois outro passo. E outro.

Eu congelei. A adrenalina paralisou meus músculos. O estalo da madeira foi chegando perto da minha cama, num ritmo lento, arrastado.

Então, o meu colchão afundou.

Bem do meu lado esquerdo, na beirada da cama, eu senti o peso de uma pessoa se apoiando. O lençol esticou sob mim. E nesse momento, o cheiro de esgoto e podridão inundou o quarto de uma vez só. Senti um ar incrivelmente gelado batendo no meu rosto, como se tivesse algo respirando bem em cima de mim, a um palmo do meu nariz.

Começou a me dar uma falta de ar desesperadora. Era um peso físico no meu peito que não me deixava puxar o fôlego. Eu estava sendo sufocada por uma presença opressiva e invisível. Eu sabia, com toda a certeza do mundo, que se eu desmaiasse ali, eu não acordaria mais. Aquela coisa ia terminar de sugar o pouco de vida que ainda me restava.

Juntei toda a força de vontade, a raiva de não querer morrer no meu próprio quarto, fechei os olhos com força e, quando finalmente consegui soltar a voz da garganta, gritei rasgando as cordas vocais:

— “SAI DA MINHA CASA! VOCÊ NÃO É BEM-VINDO AQUI! VAI EMBORA!”

No exato segundo em que eu gritei, um estrondo surdo tomou conta do quarto.

A minha janela, que era de vidro inteiriço, estourou. Não foi cena de filme de Hollywood com explosão de luz. Foi um estouro seco e brutal. A pressão dentro do quarto ficou tão esquisita, ou o choque térmico foi tão violento, que o vidro simplesmente não suportou. A janela rachou por inteiro e caiu para fora, espalhando cacos pelo beiral e despencando lá para baixo, na calçada do prédio.

O vento gelado da madrugada paulistana invadiu o quarto. E, no mesmo instante, o peso no meu colchão sumiu. O cheiro desapareceu na mesma hora. Eu consegui respirar fundo, puxando o ar pros pulmões.

Eu não tinha dinheiro para simplesmente arrumar uma mala, ir para um hotel, pagar a multa de quebra de contrato na imobiliária e me mudar. A vida real não é assim. Você tem que lidar com as consequências e pagar os boletos.

Passei o resto da madrugada encolhida no sofá da sala, com a TV ligada e todas as luzes acesas, tremendo de frio porque o vento entrava direto pelo buraco no meu quarto.

Assim que amanheceu, fui na área de serviço pegar a vassoura e uma pá para limpar o resto de vidro que ficou no chão do quarto. Quando passei pela cozinha, tomei um susto que me fez recuar um passo.

A lixeira estava tombada no chão. O pedaço de papelão com as letras do Ouija, que eu tinha jogado lá duas semanas antes, estava estirado no meio do piso frio da cozinha, imundo de borra de café e terra velha, como se alguém tivesse puxado ele lá do fundo. O copinho de vidro estava trincado ao lado dele.

Eu não chamei benzedeira, padre nem pastor. Eu não tinha dinheiro e sentia vergonha da cagada que tinha feito. Decidi que eu mesma ia limpar aquela sujeira.

Fui até a casa de produtos naturais do bairro. Comprei sal grosso, anil, um maço de arruda, alecrim e guiné. Cheguei em casa, juntei o papelão com uma sacola plástica, sem tocar direto nele, coloquei num saco de lixo grosso e levei até uma caçamba de entulho que tinha numa obra duas ruas abaixo da minha.

Depois, comecei a faxina mais pesada da minha vida. Diluí o anil na água, coloquei sal grosso e esfreguei o chão do apartamento inteiro, do fundo até a porta da rua. Enquanto eu esfregava, eu chorava e rezava, com raiva, dizendo em voz alta que a casa era minha, que meu suor pagava aquele aluguel e que nenhum encosto parasita ia me tirar de lá. Eu tomei banho de ervas e deixei copos com sal grosso nos cantos da sala.

Paguei um vidraceiro para colocar uma janela nova no mesmo dia, inventando que o vento tinha batido a folha com força.

Hoje, alguns meses depois, eu ainda moro no mesmo apartamento. A limpeza funcionou. A casa voltou a ter um clima leve, o cheiro de podre nunca mais apareceu e eu acordo disposta. Mas o trauma ensina.

Ecos das Sombras

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