Relato Anônimo: O Andar que Não Existe

visitas 4 min de leitura

Eu sempre fui um cara 100% da lógica. Trabalho com TI, passo o dia inteiro olhando para código, subindo aplicação em Docker e resolvendo bucha de sistema. Para mim, se algo dá errado, tem um motivo, um erro de sintaxe, um log que explica. Eu nunca acreditei em Setealém, falha na Matrix ou fantasma. Até a madrugada do mês passado.

Eu estava virando a noite no escritório. Era uma quinta-feira e eu precisava terminar a migração do novo sistema de acompanhamento de tarefas da empresa antes da sexta de manhã. Meu supervisor e o resto da equipe já tinham ido embora umas 19h. Fiquei completamente sozinho no andar.

Por volta das 2h da manhã, a tela do computador começou a pesar. Eu precisava de um café ou dar uma volta para esticar as pernas. Tranquei a sala, fui até o corredor e chamei o elevador para descer até o térreo.

Eu trabalho no 12º andar. O prédio estava daquele jeito clássico de madrugada: um silêncio absoluto, cortado só pelo zumbido do ar-condicionado.

O elevador chegou. Entrei, apertei o “T” e encostei no espelho. Senti aquele tranco normal da descida, mas depois de uns dez segundos, a luz do painel piscou. O visor digital, que mostra os andares descendo (11, 10, 9…), travou. Ele começou a exibir uns caracteres bizarros, parecia código corrompido.

O elevador deu um solavanco muito forte, como se tivesse freado de uma vez, e as portas abriram.

Eu ia sair andando, mas parei na hora. Não era o saguão do prédio.

Era um andar de escritório, mas tudo estava errado. A iluminação era de um tom amarelo doentio, parecia luz de poste antigo, e o ar era pesado, com um cheiro forte de carpete molhado e ozônio, aquele cheiro de chuva antes de cair, sabe?

Olhei para o painel do elevador. Estava tudo apagado.

Dei um passo para fora, só para olhar o corredor. Foi aí que o meu estômago embrulhou. Havia dezenas de baias de trabalho, e elas estavam ocupadas. Tinha gente trabalhando. Mas o som… não era som de digitação normal. Era um barulho seco e descompassado, como se dezenas de pessoas estivessem batendo com as pontas dos dedos na mesa de madeira, sem teclado nenhum.

“Tem alguém aí?”, eu perguntei. Minha voz saiu falha.

A batida parou na hora. O silêncio que ficou foi ensurdecedor.

Da baia mais próxima do elevador, uma mulher levantou devagar. Ela usava roupas sociais comuns, mas pareciam desbotadas, velhas. Quando ela virou para mim, eu gelei. O rosto dela não tinha expressão nenhuma, os olhos eram opacos, e a pele tinha uma cor acinzentada, como se ela não visse o sol há anos. Ela usava um crachá da empresa, mas no lugar da foto e do nome, tinha apenas um borrão preto.

Ela não andou. Ela meio que deslizou na minha direção e falou com uma voz que soava metálica, igual a um áudio com o cabo mal conectado:

Eu não pensei em nada. Dei um pulo para trás, entrei no elevador e comecei a esmurrar o botão de fechar a porta. A mulher deu um passo rápido e esticou a mão para segurar a porta. Os dedos dela eram compridos demais.

A porta bateu no braço dela, não reconheceu o sensor de segurança, e esmagou a mão dela de um jeito bizarro. Ela não gritou. Não demonstrou dor. Apenas me encarou com aqueles olhos mortos enquanto puxava o braço de volta.

A porta fechou. O elevador subiu com um tranco violento.

Quando a porta abriu de novo, eu estava no meu andar, o 12º. O ar-condicionado estava gelando normal. Peguei minha mochila na mesa, larguei o sistema rodando do jeito que estava e desci de escada os doze andares. Não olhei para trás.

No dia seguinte, eu perguntei para a equipe da manutenção sobre algum andar do prédio que estivesse em reforma ou desativado. O zelador, que trabalha lá há vinte anos, me olhou estranho e disse que todos os andares eram espelhados e ocupados, e que o elevador tem um sistema de segurança que não deixa parar entre os andares.

Eu continuo no mesmo emprego, mas hoje eu me recuso a fazer hora extra presencial. E até hoje, quando eu desço de elevador, eu fecho os olhos e rezo para não sentir aquele cheiro de carpete molhado. Tem lugares nesse mundo que a gente simplesmente não deveria acessar.

Ecos das Sombras

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *