Conheci essa página por acaso hoje. Para ser sincero, não costumo usar muito a internet, tenho 54 anos e ainda apanho um pouco para mexer nessas coisas. Mas acabei lendo alguns relatos de vocês pelo Threads e a curiosidade bateu. Já comecei a escrever este texto várias vezes e apaguei todas. Mesmo agora, enquanto digito, me questiono se devo ou não clicar em enviar. Mas tem certas coisas que guardamos por tanto tempo que, uma hora, fica impossível carregar o peso sozinho.
Por razões óbvias, estou usando o anonimato. Não vou citar nomes, empresas, cidades ou qualquer detalhe que possa identificar alguém. Muitas das pessoas envolvidas nisso ainda estão vivas e continuam ocupando cargos de altíssimo escalão. Algumas, inclusive, vocês provavelmente veem na televisão todos os dias, sem fazer a menor ideia do que acontece nos bastidores. E, antes que pensem que estou expondo isso por vingança ou porque fui perseguido, já deixo claro: não foi o caso. Meu sentimento hoje é de profundo arrependimento por ter me beneficiado, durante anos, da proximidade com essa gente.
Fui servidor público. Naquela época, se eu quisesse, resolvia em poucas horas problemas burocráticos que levariam meses para um cidadão comum. Mas, convivendo nesse meio, aprendi que existe uma enorme diferença entre ser “influente” e estar acima de qualquer influência. É difícil de explicar.
Havia um grupo específico que sempre estava presente. É natural que pessoas poderosas frequentem os mesmos espaços, mas comecei a notar que existiam encontros que nunca eram mencionados na agenda pública. Jantares, reuniões, convites feitos de última hora para propriedades muito afastadas. E o mais estranho era que ninguém parecia querer explicar o real motivo daquelas reuniões.
Eu me lembro de entrar nesses ambientes e sentir que eu era a pessoa menos importante do lugar. E não era por uma questão de dinheiro ou cargo — eu já estava acostumado a conviver com gente rica e influente. Era outra coisa. Existia uma hierarquia invisível e assustadora. Eu vi ministros de cabeça baixa. Vi grandes empresários ouvindo ordens em absoluto silêncio. Pessoas que praticamente não têm rosto na mídia, mas que pareciam ter acesso total às rédeas do país.
Até que chegou o dia de uma reunião específica. O local era sempre o mesmo, não me recordo a data exata, pois já faz muitos anos. Logo na entrada da propriedade, pediram para deixarmos os celulares nos carros, o que não era novidade. Fui seguindo algumas pessoas até uma área muito mais isolada do terreno. Não vou descrever a geografia do lugar porque não desejo que seja localizado.
Em determinado momento, começou algo que só posso descrever como uma cerimônia. Lembro de ver um animal sendo levado para o centro de uma área fortemente iluminada. Não quero e não vou entrar em detalhes macabros sobre o que aconteceu depois.
A propriedade era imensa e dividida em setores. Parecia um grande evento da alta sociedade, só que com “tudo liberado”. A lei ali dentro não existia, e tudo se torna muito pior quando você olha para o lado e vê grandes delegados e chefes de polícia estaduais presenciando e participando daquilo. Políticos que, na frente das câmeras e nos jornais, trocavam farpas e fingiam se odiar — como o governador e o prefeito da época —, lá dentro dividiam os mesmos vícios, ombro a ombro, unidos e sorridentes.
Não quero me aprofundar mais, porque as lembranças começam a revirar o meu estômago. Se decidi contar isso hoje, é pelo simples fato de estar acamado, com a saúde frágil, e de não morar mais no Brasil. Estar fora do país me traz uma falsa sensação de tranquilidade para desabafar, embora eu saiba muito bem que, para as pessoas que eu vi naquele lugar, fronteiras não impedem absolutamente nada.
Ecos das Sombras