Olá. Meu nome é Guilherme, hoje tenho 44 anos, mas a história que vou contar aconteceu quando eu tinha acabado de fazer 20. Faz muito tempo, mas tem certas coisas que a memória da gente simplesmente não consegue apagar. Até hoje, quando sinto cheiro de mato úmido à noite, meu estômago embrulha.
Tudo aconteceu quando um amigo meu de infância me convidou para viajar com a família dele. Nós já éramos adultos, mas tínhamos uma amizade muito forte, daquelas de crescer junto na mesma rua, então sempre que dava eu viajava com os pais dele. O destino era a Serra da Mantiqueira. O plano era ficar quatro dias por lá, fazer uns passeios, umas trilhas e, no segundo dia, participar de um acampamento mais selvagem com um grupo de trilheiros.
O primeiro dia foi super tranquilo, bem turístico. O problema começou mesmo no tal acampamento.
Fizemos uma trilha longa e cansativa durante a tarde. Chegamos no local do acampamento já no final do dia. Estávamos em um grupo razoavelmente grande, tinha a nossa galera e mais umas pessoas que a gente conheceu no trajeto. Começamos a organizar as barracas numa área de clareira. O combinado era: eu ficaria em uma barraca com esse meu amigo e o irmão mais novo dele, e os pais dele ficariam na barraca montada logo ao lado da nossa.
Quando escureceu de vez, o frio da serra bateu forte. O pessoal montou uma fogueira no centro da clareira, o clima estava ótimo. O pessoal assando umas coisas, conversando alto, e um dos caras do outro grupo tinha levado um violão. Ele tocava muito bem, o pessoal estava cantando, rindo, aquela típica cena de acampamento que você vê em filme.
E foi no meio de uma dessas músicas que a noite acabou.
Do nada, escutamos um grito.
Não foi um grito de susto, de alguém que viu uma aranha. Foi um berro rasgado, altíssimo, um som de puro desespero que ecoou pela serra inteira. A música parou na mesma hora. Todo mundo na fogueira calou a boca e ficou em choque, olhando para a escuridão do mato.
Logo depois do grito, o silêncio durou uns dez segundos. E então, começou o coro.
Era um som grave, várias vozes cantando juntas, recitando alguma coisa que não parecia português. Parecia um mantra, mas num tom muito pesado, que vinha de um ponto mais afastado e abaixo da nossa clareira. O bizarro é que estava um breu total para lá. Não tinha lanterna, não tinha fumaça, nada. Só aquele som de dezenas de vozes no meio do nada.
Até que, de repente, um clarão forte e uma coluna de fumaça subiram por trás da copa das árvores. Estava bem mais perto do que a gente imaginava.
Um cara do nosso grupo, que parecia ser mais experiente nessas trilhas, engoliu em seco e comentou baixinho que rolavam algumas coisas esquisitas na serra às vezes. Seitas, rituais, esse tipo de coisa. Ele disse que nunca tinha visto de perto, mas que tinha curiosidade. Olhou para mim, pro meu amigo e pra mais uns dois caras e falou: “Bora lá ver o que é, só de longe?”
A mãe do meu amigo ouviu e entrou em pânico. Falou que de jeito nenhum, que era perigoso, que a gente ia arrumar problema. Mas você sabe como é moleque de 20 anos. O pai do meu amigo, que era um cara super cético e achava que era só um bando de hippie fazendo fogueira, deu de ombros e falou: “Deixa os meninos irem lá, mulher. Eles já são de maior e vai uma galera junto. Só não cheguem perto.”
E nós fomos.
Descemos a encosta bem devagar, pisando leve para não quebrar galho nem fazer barulho na folhagem seca. Estávamos em cinco. Fomos nos guiando pelo som do coro, que ia ficando cada vez mais alto e denso. A luz da fogueira deles começou a refletir nos troncos das árvores.
Quando chegamos perto o suficiente para enxergar através do mato, nos abaixamos atrás de uns arbustos. A cena que eu vi ali está gravada na minha retina até hoje.
Tinha uma clareira menor. No fundo, várias pessoas de pé, usando uns capuzes escuros que cobriam o rosto. E na frente dessas pessoas, deitadas no chão de terra batida, havia umas quatro ou cinco pessoas completamente sem roupa.
Aquelas pessoas no chão estavam totalmente imóveis, não debatiam, não tentavam levantar. Mas elas faziam um som horripilante com a boca. Era um barulho contínuo, meio mastigado, como se estivessem engasgadas ou com a mandíbula travada vibrando.
No meio disso tudo, tinha uma figura central. Era uma pessoa usando uma capa de um tom amarelo envelhecido, bem suja. Ela segurava um negócio nas mãos que parecia um daqueles canos curtos de bambu ou osso que o pessoal usa para soprar rapé (medicina indígena).
O que aconteceu a seguir foi muito rápido e bizarro.
A figura de capa amarela se aproximou de uma das pessoas nuas no chão. Ela abaixou, colocou o caninho perto do rosto da pessoa e soprou um pó escuro em cima dela. No exato segundo em que o pó tocou o rosto da pessoa deitada, ela começou a ter espasmos violentos e a vomitar uma gosma escura ali mesmo no chão, sem parar de fazer aquele barulho bizarro.
Nesse mesmo instante, a fogueira que estava no centro deles deu um estouro. O fogo subiu uns três metros de altura de uma vez só. As chamas não eram normais, elas pareciam se retorcer, como se tivesse alguma coisa física ali dentro do fogo tentando sair. O calor bateu no nosso rosto mesmo de longe.
Foi demais para a cabeça de um dos caras que estava com a gente. Ele começou a hiperventilar, ficou pálido e, antes que a gente pudesse segurar, ele simplesmente desmaiou.
O corpo do cara caiu no chão duro, quebrando um monte de galho seco e fazendo um barulho alto pra caramba na noite.
O coro parou imediatamente. As figuras encapuzadas viraram o rosto na nossa direção. Eles sabiam exatamente onde a gente estava.
Uma mulher que estava no grupo deles sacou uma espécie de berrante de chifre e assoprou. O som foi agudo, doeu no tímpano.
Mas o pior não foi o som. O pior foi que, no exato milissegundo em que ela tocou aquele berrante, a fogueira imensa deles simplesmente apagou. Não foi como jogar água, que sobe fumaça e fica a brasa acesa. A luz sumiu. Ficou um breu absoluto, instantâneo, como se alguém tivesse cortado a energia do sol.
O meu coração quase saiu pela boca. O pânico coletivo tomou conta. Alguém gritou “Corre!” e foi um salve-se quem puder.
A gente levantou e saiu correndo no escuro, tropeçando em raiz, ralando a cara em galho de árvore, ligando as lanternas de qualquer jeito e correndo ladeira acima em direção ao nosso acampamento. O pior de tudo? No meio daquele desespero, a gente largou o cara que tinha desmaiado lá para trás.
Chegamos no nosso acampamento sem fôlego, brancos, tremendo. O pai do meu amigo viu a nossa cara e percebeu que não era brincadeira. Ficamos ali, em choque absoluto, olhando para o caminho de onde a gente tinha subido. Não escutamos passos correndo atrás da gente. Não escutamos gritos. O mato ficou num silêncio sepulcral, como se nada tivesse acontecido lá embaixo.
Passou uns cinco minutos, a adrenalina baixou um pouco e bateu o desespero: cadê o cara que desmaiou?
O pai do meu amigo e mais uns três homens do grupo pegaram facões, lanternas pesadas e falaram que iam descer para buscar o rapaz. Eles não andaram nem vinte metros trilha abaixo e bateram de frente com o cara. Ele estava subindo a encosta sozinho, andando devagar, cheio de terra na roupa.
Quando perguntamos o que tinha acontecido, ele disse que acordou no chão, no escuro, e não ouviu ninguém. Simplesmente levantou e subiu de volta seguindo a luz das nossas barracas. O pessoal da seita não tocou nele. Na verdade, segundo ele, não tinha mais ninguém lá embaixo quando ele acordou.
Ninguém dormiu naquela noite. Ficamos todos em volta da nossa fogueira, revezando quem ficava de vigia, com qualquer facão ou pedaço de pau na mão, até o dia clarear.
Quando o sol finalmente nasceu, por volta das seis da manhã, a racionalidade tentou tomar conta. O pai do meu amigo, teimoso, falou: “Vamos lá embaixo ver o que esses malucos deixaram de lixo. Isso é crime ambiental.”
Nós descemos. Fomos exatamente até a clareira onde tudo tinha acontecido. E essa é a parte que me faz questionar a minha própria sanidade até hoje.
Não tinha nada.
Não tinha lixo, não tinha marca de vômito no chão. E o mais impossível: não tinha marca de fogueira. Um fogo daquele tamanho, que iluminou as árvores, deixaria a terra chamuscada, restos de lenha, cinzas fumegando. Mas o chão de terra estava liso, coberto com folhas secas, intacto. Era como se nada, absolutamente nada, tivesse estado ali.
A gente desmontou o acampamento em tempo recorde e fomos embora da serra no mesmo dia. Cortamos a viagem no meio.
Eu nunca mais falei com o cara que desmaiou, não sei o que foi feito da vida dele. Mas eu sei o que eu vi.
Ecos das Sombras