O Peso da Sombra: O que Deixei no Edifício Candeias

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Meu nome é Gisele, tenho 36 anos e hoje moro numa casa arejada no litoral norte da Bahia. Acordo com o barulho do mar, sinto o vento quente bater no rosto o dia inteiro e deixo todas as janelas abertas. Faço isso porque preciso de luz. Preciso ter certeza de que o ar está circulando e de que não há cantos escuros onde o ar possa estagnar.

As pessoas acham que quem mora na Bahia vive um eterno verão de energia boa. E na maior parte do tempo, é verdade. Mas o que muita gente de fora não entende é que nossa terra é velha. Tem muita história afundada no solo de Salvador. Muito sangue, muita dor e muita coisa que se recusa a ir embora.

O que vou relatar aqui aconteceu há exatos sete anos. Eu tinha 29 na época, recém-separada, com o orçamento apertado e precisando desesperadamente de um lugar barato para morar na capital. Foi assim que encontrei um apartamento no Edifício Candeias, um prédio antigo e mal cuidado no centro da cidade, perto da região de Dois de Julho.

O prédio tinha aquela arquitetura dos anos 60: corredores longos e mal iluminados, portas de madeira maciça e um elevador de grade que vivia quebrado. O apartamento 402 era de fundos. Não batia sol em momento nenhum do dia. Mesmo no auge do verão soteropolitano, quando a rua lá fora derretia a 35 graus, o interior do meu apartamento era sempre frio. Um frio úmido, que grudava nos ossos.

Na época, eu achei que era sorte. “Pelo menos vou economizar com ventilador”, pensei. Como eu era ingênua.

Os Primeiros Sinais

A lógica humana é falha porque a gente sempre tenta arrumar uma desculpa racional para o absurdo. Quando as coisas começaram, eu culpei o encanamento, os vizinhos, o estresse do divórcio.

Começou com o cheiro. Não era o tempo todo, mas, pelo menos umas três vezes na semana, geralmente no final da tarde, um odor insuportável subia pelo ralo do banheiro e tomava conta do quarto. Não era cheiro de esgoto comum. Era um cheiro adocicado e metálico, misturado com algo podre. Lembrava o cheiro de um açougue que ficou sem energia no fim de semana. Eu jogava água sanitária, desinfetante, chamava o síndico. Ninguém mais sentia o cheiro além de mim. O síndico, um senhor de 70 anos chamado Seu Valdir, apenas me olhou com pena e disse: “Dona Gisele, esse prédio é velho. Às vezes a terra solta os gases dela.”

Depois vieram os barulhos. Eu morava sozinha e não tinha animais de estimação, mas o piso de taco de madeira do corredor vivia estalando de madrugada. Era um padrão rítmico. Trec… trec… trec… como se algo pesado estivesse andando de um lado para o outro. Eu levantava, acendia a luz e o barulho parava na hora.

Mas o pior não era o som. Era a sensação de não estar sozinha.

Você sabe como é a sensação de ser encarada? Aquela intuição primitiva que arrepia os pelos da nuca e faz você olhar por cima do ombro? Eu comecei a sentir isso 24 horas por dia dentro de casa. Eu tomava banho de olhos abertos por medo de fechá-los para lavar o cabelo. Eu jantava de frente para a porta do corredor. O apartamento parecia estar constantemente “cheio”. O ar era pesado, espesso, difícil de respirar.

A Escalada

No terceiro mês morando lá, a entidade parou de se esconder.

Era uma noite de terça-feira. Eu estava exausta, tinha trabalhado o dia todo fechando planilhas, e deitei por volta das 23h. Peguei no sono rápido, mas acordei subitamente umas 3h da manhã.

Meu corpo estava completamente paralisado. Eu sei o que é paralisia do sono, já li tudo a respeito. O cérebro acorda, mas o corpo continua dormindo. Você tem alucinações. É a ciência explicando o inexplicável. Eu tentava repetir isso mentalmente enquanto meus olhos varriam o quarto escuro, iluminado apenas por uma nesga da luz do poste que entrava pela fresta da persiana.

Foi então que eu vi.

No canto do teto, bem em cima da porta do meu quarto, o escuro parecia mais denso. Havia uma mancha negra que não pertencia à penumbra natural. E ela estava se movendo.

A coisa começou a descer pela parede, de cabeça para baixo, como um inseto doente. Não tinha uma forma humana definida, era como uma massa de sombras compactadas, mas eu conseguia distinguir membros alongados e desproporcionais. O cheiro de carne podre inundou o quarto com tanta força que meus olhos lacrimejaram.

A entidade desceu até o chão e se ergueu. Devia ter quase dois metros e meio, as costas curvadas para não bater no teto. Não tinha rosto, mas, de onde deveria estar a cabeça, emanava uma energia tão densa, tão cheia de ódio puro e irracional, que eu senti vontade de vomitar. Não era o fantasma de alguém que morreu triste. Era algo que nunca foi humano. Era um parasita, uma inteligência primordial e maligna.

A criatura deu um passo na direção da minha cama. O som que ela fez não foi de passos, foi um som de sucção, como carne molhada desgrudando do chão.

Ela parou ao lado da minha cama e inclinou a “cabeça” sobre mim. O frio que emanou dela congelou meu suor. Eu não conseguia gritar. Não conseguia rezar. O terror era tão absoluto que esvaziou minha mente. Fiquei ali, presa em meu próprio corpo, enquanto aquela coisa ficava debruçada sobre mim, apenas se alimentando do meu desespero.

Depois do que pareceram horas, a luz do sol começou a clarear a janela. A sombra simplesmente desmoronou no chão, como fumaça, e sumiu pelo rodapé. Meu corpo destravou. Eu sentei na cama, chorando histericamente, tremendo de frio em uma manhã de 28 graus na Bahia.

O Confronto

Eu passei o dia seguinte na rua. Fui para um café, levei meu notebook e procurei outro lugar para morar. Eu não tinha dinheiro para pagar quebra de contrato, não tinha para onde ir, mas decidi que dormiria num hotel barato ou na rodoviária se fosse preciso. Só precisava voltar lá para pegar minhas roupas e meus documentos.

Chamei uma amiga, a Carol, para ir comigo no fim da tarde. Não contei o que era, disse apenas que o prédio tinha problemas estruturais e eu ia sair.

Chegamos ao apartamento às 18h. O sol estava se pondo. Assim que destranquei a porta, a Carol parou no hall de entrada. Ela olhou para dentro, pálida, e deu um passo para trás.

— “Gi… tem um bicho morto aí dentro? Que cheiro de carniça é esse?” — ela perguntou, cobrindo o nariz.

— “Você tá sentindo?” — eu perguntei, sentindo um misto de alívio por não estar louca e pânico por saber que a coisa estava forte.

— “Tô. E o ar tá gelado. O ar-condicionado tá ligado?”

— “Eu não tenho ar-condicionado, Carol.”

Entramos rápido. Fui direto pro quarto jogar minhas roupas em malas grandes. A Carol ficou na sala, e eu pedi que ela não saísse de perto da porta da rua.

Eu estava fechando o zíper da segunda mala quando a luz do quarto estourou. Não queimou, estourou. Cacos de vidro da lâmpada caíram na minha cabeça.

No mesmo segundo, ouvi um grito sufocado da Carol na sala. Corri tropeçando no escuro e a encontrei paralisada, encostada na porta da frente, com os olhos arregalados apontando para o corredor que dava para o banheiro.

No meio do corredor, bloqueando a nossa saída, a entidade estava lá. Desta vez, não era apenas uma sombra do quarto escuro. Mesmo com a luz fraca que entrava pela janela da sala, dava para ver sua densidade. Tinha a cor de asfalto molhado. E agora emitia um som. Era um zumbido grave, como um enxame de moscas misturado com um chiado de estática de televisão.

O ar ficou tão pesado que eu sentia pressão nos tímpanos. O instinto de sobrevivência bateu mais forte que o medo. Lembrei de uma senhora benzedeira que conheci na infância. Ela dizia: “Espírito ruim se alimenta do teu medo. Se tu mostrar que a casa é tua, ele encolhe.”

Eu fechei os punhos, respirei fundo puxando aquele ar podre, e, com uma voz que eu nem sabia que tinha, gritei lá do fundo do meu peito:

— “VOCÊ NÃO TEM PERMISSÃO DE ESTAR AQUI! ESSE ESPAÇO NÃO É SEU! VÁ EMBORA!”

O zumbido ficou ensurdecedor. A sombra pareceu inflar, ocupando quase todo o corredor. Eu segurei a mão da Carol, que chorava compulsivamente, e dei um passo na direção da coisa.

— “EM NOME DE DEUS, VOCÊ NÃO TEM PERMISSÃO!”

Foi como empurrar uma parede magnética. Quando cheguei a um metro de distância, a entidade deu um solavanco, como se tivesse sido atingida por um choque. O cheiro de enxofre atingiu o pico, e com um barulho de sucção violentíssimo, a sombra colapsou sobre si mesma e sumiu pelo ralo do banheiro, batendo a porta de madeira com tanta força que o batente rachou.

O silêncio que se seguiu foi quase doloroso. O cheiro dissipou em segundos. A temperatura da sala voltou ao calor abafado e úmido de Salvador.

O Resquício

Pegamos minhas malas e saímos correndo pelas escadas. Deixei a chave na portaria e nunca mais voltei. O dono do apartamento ameaçou me processar por quebra de contrato, mas parou de mandar mensagens quando eu ameacei expor a “situação insalubre” do imóvel.

Anos depois, conversando com um pesquisador de história local em um bar no Rio Vermelho, perguntei sobre o Edifício Candeias. Ele me contou, como quem conta uma curiosidade turística, que o prédio foi erguido nos anos 60 em cima de um terreno que abrigou um matadouro no século XIX, e que, antes disso, era um local de desova clandestina de corpos na época colonial.

Hoje, aos 36 anos, vivendo minha paz na beira da praia, eu sei que existem falhas geográficas e espirituais no mundo. Existem lugares que são como feridas abertas, onde entidades rastejam para fora, buscando algo que pulse para se alimentar.

Se você está lendo isso, e sentiu um frio inexplicável subir pelas pernas, ou se o canto do seu quarto parece um pouco mais escuro do que deveria estar… não olhe diretamente. Acenda a luz. Abra a janela. E lembre-se: nunca, em hipótese alguma, sinta medo. É o medo que abre a porta de vez.

Ecos das Sombras

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