Meu nome é Renato, tenho 31 anos, e moro em um apartamento de um apartamento na zona leste de São Paulo. Se tem uma coisa que eu gosto de fazer no meu tempo livre é bater perna em feira do rolo. Você acha de tudo: ferramenta, videogame antigo, peça de carro… é um garimpo que vicia.
Dois meses atrás, em uma feira perto da estação, vi algo que me chamou a atenção em uma banca de desapegos. Era uma caixa de madeira escura, entalhada, com ferragens de bronze que já estavam bem oxidadas pelo tempo. Parecia um relicário antigo ou uma caixa de joias de outro século. Não era luxuosa, mas tinha um peso diferente, uma imponência estranha. O vendedor era um senhor bem quieto, que parecia querer se livrar daquilo logo. Paguei vinte reais e trouxe para casa.
Cheguei no apartamento, limpei o pó com um pano úmido e, logo de cara, decidi a utilidade dela: ia ser a caixa onde eu guardaria minhas coisas do dia a dia, como relógio, chaves, carteira e uns documentos que ficavam espalhados no criado-mudo. Abri a tampa, que rangeu um pouco e vi que por dentro ela era forrada com um veludo vermelho, um pouco gasto. Parecia perfeitamente normal. Deixei ela em cima da minha mesa de cabeceira.
Aquele foi o começo de um período que prefiro não lembrar.
Na primeira noite, eu acordei por volta das três da manhã. O quarto estava gelado, apesar do calor que fazia lá fora. Sentei na cama, meio tonto, e olhei para o lado. A caixa estava lá, fechada, exatamente como eu tinha deixado. Mas o ar no quarto parecia diferente, denso, como se tivesse uma pessoa em pé do lado da minha cama, observando o meu sono. Eu cheguei a acender o abajur, mas não tinha nada ali. Só um silêncio absoluto e um cheiro muito forte de naftalina misturado com algo que lembrava carne crua.
Eu tentei me convencer de que era só o cansaço do trabalho, mas a partir daquela noite, a minha rotina virou um estado de alerta constante. A energia do apartamento mudou. Não é que objetos mudassem de lugar ou que a caixa se movesse, ela continuava lá, parada, empoeirando no meu criado-mudo. O problema era a sensação. Sempre que eu entrava no quarto, eu sentia que estava invadindo o espaço de alguém.
A minha saúde começou a ir para o buraco. Eu vivia cansado, irritado, com uma dor de cabeça que não passava por nada. O apartamento parecia cada vez menor e mais hostil. Eu evitava ficar no quarto durante o dia. Se precisava trocar de roupa, eu entrava, pegava o que queria e saía correndo, sempre com a sensação de que tinha um par de olhos invisíveis cravado nas minhas costas, vindo daquela caixa de madeira.
Foi na terceira semana que eu vi pela primeira vez.
Eu estava passando pelo corredor do apartamento, voltando do banheiro, por volta de uma da manhã. A luz da sala estava apagada. Ao passar pela porta, dei uma olhada rápida para dentro. Perto do guarda-roupa, vi um vulto. Era uma figura baixa, com mais ou menos 1,60 de altura, bem magra, quase esquelética. O vulto estava parado, meio curvado. No momento em que meus olhos focaram, ele simplesmente desapareceu, como se tivesse se misturado com a sombra da parede.
Meu coração disparou. Eu não dormi. Fiquei sentado no sofá da sala, com a luz acesa e dormi ali mesmo.
A segunda vez aconteceu dois dias depois. Eu estava sentado na mesa da cozinha, tomando um copo de água, quando, pelo reflexo da janela da área de serviço, vi a mesma figura passando na porta da cozinha. Era rápida, silenciosa, e tinha o mesmo porte franzino. Eu dei um pulo, corri até a porta e não tinha ninguém no corredor. O apartamento estava vazio.
O que mais me apavorava era o estado físico daquilo. Embora eu só tivesse visto de relance, era como se o ser tivesse cortes profundos no rosto. Nas duas vezes que vi, tive a impressão de que a pele daquela coisa era marcada, com feridas abertas, como se tivesse passado por algo muito violento.
Eu estava ficando doente, com olheiras profundas e um medo paralisante de chegar em casa.
A terceira vez foi o meu limite. Eu estava deitado, fingindo que estava dormindo, mas com um olho aberto. De repente, a figura apareceu do lado da minha cama. Ela estava lá, observando o meu rosto. Aquela coisa era muito magra, com ombros caídos e uma presença de morte que me fez prender a respiração. Eu vi, na penumbra, as marcas vermelhas, cortes transversais na face, como se a própria pele estivesse rasgada. O ser ficou lá, imóvel, por uns segundos que pareceram horas, antes de se virar e sumir novamente em direção à sombra do canto do quarto.
Eu não tive coragem de gritar. Eu só esperei amanhecer.
Naquela tarde de sábado, eu não pensei duas vezes. Peguei a caixa, envolvi em um saco de lixo preto, passei fita adesiva em volta até ficar um bloco sólido, e fui até um terreno baldio bem longe, umas três ruas atrás do meu prédio. Joguei aquilo no meio do mato.
Voltei para casa e fiz o que qualquer pessoa faria se estivesse desesperada: limpei o apartamento inteiro, joguei sal grosso em todos os cantos, acendi incenso até a casa ficar azul de fumaça e deixei todas as janelas abertas por dois dias seguidos.
A paz não voltou na hora. Por uma semana, eu ainda entrava no quarto com o coração acelerado, esperando sentir aquela presença. Mas, aos poucos, o ar no meu apartamento foi ficando leve de novo. O cheiro de carne crua desapareceu e aquela densidade no quarto se dissipou.
Eu aprendi da pior forma possível: tem coisa que você compra em feira do rolo que não é objeto esquecido.
Ecos das Sombras