A Coisa na Fazendo do meu Tio

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Se você acha que filme de alienígena é assustador, é porque nunca esteve no meio do mato, a dezenas de quilômetros da cidade mais próxima, no escuro absoluto. Quando você está na roça, o silêncio nunca é total. Tem grilo, sapo, vento nas folhas, cachorro latindo ao longe. O verdadeiro terror é quando a natureza inteira simplesmente cala a boca.

Isso aconteceu há uns três anos, na fazenda do meu tio, no interior. Fui pra lá passar um feriado prolongado, queria fugir da cidade, comer comida de fogão a lenha e não fazer nada. Meu tio mora lá sozinho com uns quatro cachorros vira-latas que não têm medo de nada, botam onça pra correr se precisar.

Na segunda noite, por volta das 3h da manhã, eu acordei com vontade de ir ao banheiro. A casa do meu tio é daquelas antigas, com varanda em volta e janelas de madeira que rangem. Estava um calor infernal, então eu tinha deixado a janela do meu quarto entreaberta.

Quando levantei da cama, percebi uma coisa estranha: os cachorros não estavam latindo, mas eu conseguia ouvir um choro baixo. Sabe quando o cachorro tá apavorado e fica ganindo fininho, encolhido? Eles estavam todos debaixo da varanda, chorando daquele jeito. E o resto da fazenda estava num silêncio mortal. Nem os grilos cantavam.

Fui até a cozinha para pegar água. A janela da pia dava direto para o pasto que descia até um córrego. A lua estava muito clara, daquelas que iluminam quase tudo. Enquanto eu enchia o copo na moringa, olhei para fora, meio sem pensar.

Lá embaixo, perto da cerca de arame farpado, tinha uma figura em pé.

De primeira, achei que fosse um ladrão de gado ou alguém da região que tinha se perdido. Mas, conforme eu fui focando a visão, meu sangue gelou. A proporção do corpo estava toda errada.

Não era um “homenzinho verde” nem nada de filme. Era alto, muito alto, devia ter mais de dois metros. Os braços eram compridos demais, passavam da linha dos joelhos, e as pernas pareciam ter uma articulação extra, dobrando um pouco para trás, como a perna de um cachorro ou de um cavalo. A pele não refletia a luz da lua direito, era de um cinza muito pálido, fosco, parecia a textura de um cogumelo que cresce no escuro.

Eu fiquei paralisado com o copo na mão. Meu cérebro tentava achar uma explicação lógica: é um cara doente, é um animal esquisito, é a sombra de uma árvore. Mas não era. A coisa estava abaixada perto de um dos bezerros do meu tio. O bezerro estava deitado, completamente imóvel, nem tentava fugir.

A criatura não estava comendo o animal. Ela estava só passando aquela mão anormalmente longa sobre a barriga do bezerro, com movimentos robóticos, travados. Era como se estivesse estudando, examinando.

O que aconteceu em seguida é o que me dá pesadelos até hoje.

Eu não fiz barulho nenhum. Estava descalço, no escuro da cozinha. Mas, de repente, a coisa parou o que estava fazendo. Lentamente, ela virou a cabeça na direção da casa. Na minha direção.

O rosto não tinha nariz nem orelhas. Os olhos não eram pretos e amendoados como a gente vê na TV. Eram só dois buracos fundos e escuros, e eu senti, lá no fundo da minha alma, que aquilo estava me vendo. A sensação não era de maldade. Era uma sensação de indiferença absoluta. Como se eu fosse uma formiga na parede e ela tivesse acabado de notar que eu estava ali.

A criatura deu um passo na direção da casa. O movimento foi silencioso e rápido demais, como se tivesse deslizado e pulado os três metros da cerca sem nenhum esforço.

Eu entrei em pânico. Joguei meu corpo no chão da cozinha, me encolhendo embaixo da pia, torcendo para que a sombra me escondesse. Meu coração batia tão forte que eu achei que ia ter um infarto ali mesmo. Fiquei ouvindo. Esperando o barulho de passos na varanda. Esperando a porta da frente ser arrombada.

Mas nada aconteceu. Fiquei ali, deitado no piso gelado, até o sol raiar e os galos começarem a cantar.

Quando finalmente tive coragem de levantar e olhar pela janela, o pasto estava vazio. Fui pro quarto do meu tio, e ele já estava acordado, passando café. Ele olhou para minha cara de terror, me deu uma xícara e, antes que eu conseguisse abrir a boca, ele disse, olhando pro chão:

— Os cachorros dormiram embaixo da casa hoje. Passou por aqui de novo, né?

Eu fiquei mudo. Ele deu um gole no café, com a maior naturalidade do mundo, e continuou:

— O bezerro amanheceu morto, sem uma gota de sangue. Vou ter que enterrar longe pra não chamar mosca. Quando isso acontece, o segredo é não acender a luz e não olhar. Eles não gostam que a gente olhe.

Peguei minhas coisas e fui embora da fazenda antes do almoço. Meu tio continua morando lá. Ele diz que é o preço de viver longe da cidade, a gente tem que dividir o espaço com as coisas que moravam ali primeiro. Eu nunca mais voltei. E toda vez que vou na cozinha de madrugada, eu não tenho coragem de olhar pela janela.

Ecos das Sombras

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